sexta-feira, 1 de junho de 2012

...é a segunda vez que encontro um parafuso solto no ônibus. Novamente ele se mostrou, em puro ferro denso e desgastado pelas barbas da ferrugem....solto no chão, balançando no itinerário que faz, pegando carona com meu olhar. Cena que mostra algo possivelmente fora do lugar, tempo aparentemente normal, uns entram uns saem...... mas que um parafuso faz falta pra alguma coisa, talvez algum motor, alguma poltrona, faz falta sim...
A rebeldia e a cara de pau deste parafuso lá....podia ter saído, podia ter sido jogado.....não, nada disso. Ficava lá no afrontando a tudo e a todos....é a segunda que te encontro...decifrando seu sinal....

quarta-feira, 11 de abril de 2012

maresia

testo a trama que teço ....testo a trama que deixa...
deixa passar as areias......as areias que são levadas pelo mar....
cada grão que passa no vão.....vão grande que passa a água...
vão pequeno que pega o peixe......vão certo que corta a mão...
trama de ranços, de nós,de tensão.....mas a água vai levando....
para bem longe...enquanto chegam novos visitantes......parando em seu abraço...
chega a hora de subir, de secar novamente, ser usurpado do próprio suor...
quebro, arrebento, estico......amarrado fico, jogado ao sol!!!
o próximo deixar.....deixar molhar...molhar de deixar...

quinta-feira, 5 de abril de 2012

ferindo

trás a tona desejos insaciáveis...indecifráveis...
joga pra trás cada segundo...levando a vida de forma insegura...
certo de que o escudo protetor o abandonou, não quis mais....não retornou...
pela janela aberta, pelo vento que bate o trinco, pela parede descascada...
deixou todo o pranto...toda a fome...toda melancolia da nuvem...
toda sintonia da flor....foi louco fui louco.....
o frio do outono conforta este tempo, este lugar....
as pétalas amarelas caindo no chão......tentando seguir sua pegada veloz.....
a cada canto a trilha se abre, levantam-se gigantes, leões.....
.....indecifráveis vão se tornando os segundos inertes de potência, de zelo
segundos zelosos não movem o relógio, no pulso de ninguém......

segunda-feira, 5 de março de 2012

brincar de netuno!

Afundo,
Afundo,
chego mais ao fundo!
Fundo do mar, fundo do estar....fundo da piscina, não importa! Certo é que afundo...
Paro um pouco ... deixo o observar do silêncio, só ele faz presente....metros abaixo da superfície sinto-me ao revés..
Deixo o topo onde o lá embaixo observa,
O topo era claro e quente; vai ficando para trás, para o alto...desço cada vez mais e mais...
A água é fria, cristalina quase transparente.....azul gélido....azul pálido
Estou envolvido, posso sentir isto em cada parte do meu corpo,
O peso do empuxo, o flutuar da alma,
Não pertenço a este lugar.....mas observo. Suas paredes cinzas estão no contorno lateral, sem as mesmas ao fundo,
Envolto flutuante....agora posso voar, ecoar no silêncio....
Paralisei o tempo, paralisei as horas, reservei o meu lugar, mesmo que dure pouco, poucas horas,
Poucos segundos...mas é meu, foi meu..
Basta!
Meu corpo me lembrou...preciso respirar o vento que não me toca mais....

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

onde as sereias se escondem

mareia o mar no maremoto,
mar no maremoto fica confuso porque não sabe se une ou se separa ao vento,
se continua batendo nas pedras feito uma criança furiosa sem o seu amparo,
continua a cuspir suas ondas sobre o calçadão,
seus peixes não entendem tremenda tormenta,
a água é vítima e arma de tanta fúria, é com a água que vinga-se o mar, as fadas, as sereias
que por um instante, vigam-se pelos tantos marinheiros que não conseguiram puxar, por não fazer tantas viúvas em seu lençol,
de tantos barcos que não conseguiram tragar,
de tantas velas que não conseguiram rasgar,
nesta tempo sombrio...de frio e de pele enrugada... enxarcada,
minha pele escamoteia, minhas vestes confundem-se com a areia molhada; não existem mais os castelos na praia, foram invadidos pelo mar revoltoso, impiedoso, não convidado...
até meu chapéu eu perdi dragado pela maré que devora-me minha alma, chicoteia meus pesares,
imagino os cardumes neste balançar quase materno só que de algo bruto como meus tios,
onde as sereias se escodem ou se é que se é que se escondem!
maré,
moto, ..........notei

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

"A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados.
Se os olhos estão na 'caixa de ferramentas' elas são apenas ferramentas
que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, 
nomes de rua - e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é
necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam...Mas, quando os olhos estão 
na 'caixa de brinquedos', eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer do olhar, querem fazer amor com o mundo."

Rubem Alves

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

sob o estrondo dos trovões

através das camadas e mais camadas de terra e poeira, o antigo é desvelado.... é reconhecido.
assim trabalham aqueles que significam a arte do passado, esquecidos em seus locais, suplicando a presença do incógnito.
mundos estão lá, no infinito de nossa incapacidade de conectar...hermeticamente isolados em suas gruas, em seus postes, em seus vitrais.
dou alguma forma aos sentimentos dos gargulas que, exaustos vibram ao novo ar, camada por camada.
construimos, significamos, vivenciamos. Os segundos ganham peso quando concentrados e neste processo condensamos linguagens...
minha antiguidade é lentamente revelada....cada etapa é ligada como um elo. Porém, não escuto mais os primeiros.
minha regra vem de controle que por sua vez vem de insegurança....que exala o medo de exposição, de algo íntimo,só meu,único....revivenciando assim o choque da humilhação; volto ao tempo onde o lago transbordou após a longa chuva. Chuva molhada, chuva pesada que de tanto cair, expos os peixes ao solo, pós transbordamento.
lembro daquilo, escondido através das ruinas de minha memória condesada.
já havia me esquecido dos detalhes, do tempo chuvoso, do cheiro da chuva, do cheiro da exposição...
ligado os elos, ponto a ponto começo a reconectar a humilhação.
O grito em vão profanado não obteve fim, não ecoou, não reverberou....saiu e não retornou. ficou só aguardando o retorno, abandonado no tempo dos peixes fora do habitat, sob o estrondo dos trovões.