sexta-feira, 24 de agosto de 2012

linha d

Neste exato instante, naquele cidadela encrostada nas falésias de Mali, o hotel velho do centro, com seu cheiro podre de mofo, com seus carmins desbotados..muito mais do que aqueles dourados a densidade da tarde é cortada pelo zunir quase como um zíper, bisturizando o tempo e o espaço em dois, fatiando para um nível a areia e para o outro ... o seu sol ...

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

ultrapassei as areias do deserto em tons adobe claros e incertos ostentando na mão sangrenta as ternuras do orvalho, como se em um passe de mágica tudo parasse, tudo não respirasse.... abri as portas daquela cidadela esquecida por seus portões de cobre cujo ranger impregnou-se no vazio do ar quente e desbotado do pátio mergulhei-me imperceptivelmente em seu ventre-deleite, matutino sob a luz de um novo dia sob as barbas do recomeçar de uma nova aurora....

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Desapego

Que pasa na terra que brota na secura marcada na pele. jorra histórias de dolor.......de sangue misturado com poeira e solidão. A língua é mantida viva nos tempos novos partilhados com ovelhas e teares..... ...."La Pachamama". Presenteia-nos a cada dia com suas colores, suas raças se apresentando toda um pouco mais, desconfiada pelo estrupo original e contínuo, dilacerando sua paciência...seus filhos.. Verdes lindos campos com tons complementares de vermelho escarlate e um azul royal que impressiona... ....Terra sagrada de Marawa

terça-feira, 12 de junho de 2012

chá da tarde

testava o peso do mundo tocando os seus imensos cílios de gente
seu corpo mundano com feridas escarlates abertas para o puro contemplar
Disse-me: "Olhe pra estas escaras! Elas são suas, abriram-se por você"
Sinto o peso do mundo,
por que será que a coroa significou tanto em sua têmpora?
do lado de lá do rio tudo parece mais tranquilo, mais amarelo,
um som doce e graciosamente envenenado emana para me buscar
como se eu desse ouvidos...dar meus ouvidos seria um troca justa? Parece que sim
como uma moeda valiosa, reluzente ao brilho do olhar mercantil, pesado na balança
já sei -"Darei como deu Gogh?" - simplesmente ofertou o escambo para não ouvires mais o lampejo fúnebre
do outro lado do rio
do rio, de lá testam o peso do nada e de cá, o teste, é o tudo que pesam.

- Uma xícara mais por favor, completou a triste senhora
e ainda - Que destes tristes campos em teus sonhos, ficarei contigo até o acordar


sexta-feira, 1 de junho de 2012

...é a segunda vez que encontro um parafuso solto no ônibus. Novamente ele se mostrou, em puro ferro denso e desgastado pelas barbas da ferrugem....solto no chão, balançando no itinerário que faz, pegando carona com meu olhar. Cena que mostra algo possivelmente fora do lugar, tempo aparentemente normal, uns entram uns saem...... mas que um parafuso faz falta pra alguma coisa, talvez algum motor, alguma poltrona, faz falta sim...
A rebeldia e a cara de pau deste parafuso lá....podia ter saído, podia ter sido jogado.....não, nada disso. Ficava lá no afrontando a tudo e a todos....é a segunda que te encontro...decifrando seu sinal....

quarta-feira, 11 de abril de 2012

maresia

testo a trama que teço ....testo a trama que deixa...
deixa passar as areias......as areias que são levadas pelo mar....
cada grão que passa no vão.....vão grande que passa a água...
vão pequeno que pega o peixe......vão certo que corta a mão...
trama de ranços, de nós,de tensão.....mas a água vai levando....
para bem longe...enquanto chegam novos visitantes......parando em seu abraço...
chega a hora de subir, de secar novamente, ser usurpado do próprio suor...
quebro, arrebento, estico......amarrado fico, jogado ao sol!!!
o próximo deixar.....deixar molhar...molhar de deixar...

quinta-feira, 5 de abril de 2012

ferindo

trás a tona desejos insaciáveis...indecifráveis...
joga pra trás cada segundo...levando a vida de forma insegura...
certo de que o escudo protetor o abandonou, não quis mais....não retornou...
pela janela aberta, pelo vento que bate o trinco, pela parede descascada...
deixou todo o pranto...toda a fome...toda melancolia da nuvem...
toda sintonia da flor....foi louco fui louco.....
o frio do outono conforta este tempo, este lugar....
as pétalas amarelas caindo no chão......tentando seguir sua pegada veloz.....
a cada canto a trilha se abre, levantam-se gigantes, leões.....
.....indecifráveis vão se tornando os segundos inertes de potência, de zelo
segundos zelosos não movem o relógio, no pulso de ninguém......